(حماسه گیل گمش )
Já fazia quase um século desde que a Grande Cheia dizimou quase todo o mundo que se conhecia e os povos começavam, aos poucos, a se reerguer.
Numa terra distante, banhada por caudalosos rios conhecidos como Dois Irmãos, existia um lugar próspero, repleto de vida e fartura. Diziam que seu rei não era apenas
um homem, mas que fora moldado no barro pela deusa Aruru e era 2/3 deus e 1/3 humano: seu nome era Gilgamesh.
Sob sua auspiciosa liderança, a cidade que viria ser conhecida como Uruk se ergueu da destruição que as águas do tormento dos deuses trouxe e tornou-se algo parecido com um paraíso de conforto e justiça.
Entretanto nem mesmo um ser cuja essência é mais divina do que humana consegue livrar-se para sempre da cegueira enlouquecida trazida pelo poder e assim, a cada colheita que se passava, o nobre Gilgamesh tornava-se menos justo e amistoso, dando vazão a um comportamento violento e ditatorial.
Temerosos com as atitudes de seu cruel rei, o povo rezava pela intervenção divina.
Os deuses, misericordiosos, ouviram as preces dos pobres sumérios e retiraram-se de suas divinas moradas para três dias de profunda meditação.
No final do terceiro dia a deusa-mãe Aruru decidiu que, assim como criara Gilgamesh do barro, criaria também alguém capaz de conter a fúria do rei sumério e lhe mostrar mais uma vez o que é certo e justo, ensinando-lhe a humildade.
Dessa forma, ao terminar de moldar o novo ser, Aruru impôs-lhe as mãos sobre a cabeça dando-o uma aparência similar a do deus Anu e o n
omeando Enkidu.
Ao chegar ao Delta dos Dois Irmãos Enkidu pôs-se a proteger o
s animais, impedindo assim que os caçadores pudessem abater suas presas e desta forma levando a fome ao reino do divinal Gilgamesh.
O rei, preocupado com a aparente força e selvageria de Enkidu, ordenou que uma sacerdotisa hierodula do templo de Isthar fosse deitar-se com o este para que, ao final de seis dias e seis noites sem descanso, o arauto dos deuses estivesse exausto demais para
conseguir vencer Gilgamesh num confronto.
E assim foi feito: Enkidu passou seis dias e seis noites na companhia da jovem e bela sacerdotisa e logo em seguida fora confrontado pelo rei de Uruk.
Ambos confrontaram-se por longos minutos entre golpes de mãos, pés e pedras, até que por fim Gilgamesh tombou ante o poder do exaurido Enkidu, crendo que morreria. Mas, ao ver a compaixão nos olhos de seu oponente, o rei lembrou-se da compaixão que apenas a divindade traz e se arrependeu de seus erros.
Ambos se abraçaram e viram-se, então, como irmãos.
Livre da malévola influência de sua mãe Ninsu, que o corrompera, Gilgamesh decide deixar pela primeira vez o trono sumério que pertenceu ao seu pai Lugulbanda e se aventurar por todo seu reino com Enkidu, levando justiça para todos.
Assim eles partem para o Bosque dos C
edros para enfrentar uma misteriosa criatura chamada Humbaba, que cuspia fogo e habitava uma caverna, levando com freqüência terror aos moradores de um vilarejo que ficava ali por perto.
Após decapitar o monstro, ambos seguiram em frente sua jornada.
Muitos invernos já haviam se passado quando eles, saudosos de sua terra natal, decidiram retornar a Uruk, onde o povo estava pronto para receber-lhes como heróis.
No entanto, do lado de fora das muralhas d
a cidade, os amigos são abordados pela deusa da fertilidade Isthar, que exige que Gilgamesh torne-se seu amante e marido, mas o rei a rejeita, afirmando que o seu compromisso é com seu povo.
Repleta de rancor, Isthar procura seu pai Anu e pede para que este destrua o reino de Gilgamesh em retaliação a rejeita. Assim, o deus máximo do panteão sumério envia o Touro dos Céus para devastar a cidade de Uruk.
Gilgamesh e Enkidu confrontam bravamente o touro, que após longa
batalha é derrotado e cuja cabeça torna-se um elmo.
Furioso com os heróis de Uruk por terem matado seu animal predileto, Anu dobra o próprio firmamento e enlaça os suaves fios do destino, fazendo com que Enkidu contraia uma doença g
ravíssima e morra.
O bravo Gilgamesh verte lágrimas de dor sobre o corpo sem vida de seu amigo-irmão e
decide ir à montanha mais alta para desafiar os deuses em troca da resposta para o Enigma da Vida Eterna... mas os deuses o ignoram.
Assim sendo, o bravo guerreiro decide descer até as profundezas do Reino da Morte.
Depois de enfrentar os gigantescos escorpiões de pedra que guardavam os portais da pós-vida, cruzar os rios de fogo do Inferno de Nergal e subir até o Jardim de Luz, Gilgamesh encontra o ultimo sobrevivente da Grande Cheia, Utnapishtim (que é o nome sumério de Noé).
O sábio alertou Gilgamesh da impotência dos homens ante a morte, mas também disse que existia uma flor espinhosa e colorida similar a uma rosa que nascia no lodo das profundezas do Mar da Morte que poderiam trazer imortalidade, juventude eterna e ressuscitar os mortos.
Após uma árdua jornada pra conseguir obter tal flor, o herói finalmente a colhe.
Já no mundo dos vivos, de volta à cidade de Uruk, Gilgamesh está muito cansado e decide beber um pouco de água e refrescar seu corpo num manancial que encontra próximo a muralha da cidade. E é enquanto se refresca que Nergal, disfarçado como uma serpente, rouba a flor e a leva de volta para o mundo dos mortos.
Em suas mais profundas lágrimas de dor, Gilgamesh compreende que não importa o quanto se lute e quanto poder se tenha, jamais se pode vencer a Morte.
E este foi o castigo que os deuses lhe conferiram pela crueldade com a qual ele conduzira Uruk no passado: deram-lhe um irmão, lhe ensinaram a amar e por fim tiraram dele a quem amava.
E desta forma – a mais dolorosa de todas – Gilgamesh finalmente aprendeu a maior das lições: a humildade.
A epopéia de Gilgamesh é considerada hoje o texto mais antigo da História da Humanidade, estando presente em tábuas pertencentes ao rei Assurbanipal da Acádia no século VIII a.C.
Entretanto os excertos mais antigos contendo esse épico datam de XX a.C.
A versão resumida deste épico foi encontrada pelo arqueólogo inglês Austen Henry Layard em 1849 e sua primeira tradução para o inglês foi feita em 1860 pelo historiador britânico George Smith. O biblista e assiriólogo Emanuel Bouzon, da PUC carioca, foi a primeira pessoa a traduzir este épico para o português, na década de 60.
Este épico é retratado também na obra de Robert Silverberg “Gilgamesh: the King” de 1984; na ópera homônima de Rudolf Brucci (que fora escrita por Arsenije Arsa Milošević, dividida em três atos e estreara em 2 de novembro de 1986 no Teatro Nacional Sérvio, na cidade de Novi Sad); e na graphic novel lançada pela editora Soleil em 2009 (escrita por Julien Blondel e ilustrada por Alain Brion).
Um anime de 2003 de Shotaro Ishinomori, apesar de ter o nome Gilgamesh (ギルガメ ッシュ) tem pouquíssimas ligações com o épico sumério.
O personagem aparece também como membro do grupo Vingadores, criado por Jack Kirby em julho de 1977 para o décimo terceiro número da revista Eternals (volume 1), mas é pouquíssimo explorado pela editora Marvel Comics, chegando inclusive a ser renomeado para “Forgotten One”.
Um programa de variedades pornográfico japonês levava o título de Gilgamesh Nights (ギルガメッシュないと / ギルガメッシュ・ナイト) e fora criado por Ai Iijima, sendo exibido na TV Tokyo aos sábados a 1h15’ da madrugada entre 1991 e 1998.
Existem duas bandas que usam o nome do personagem: uma japonesa de visual-key (ギルガメッシュ); e outra de jazz fusion fundada pelo tecladista Alan Gowen em 1972, tendo lançado três álbuns (sendo o ultimo, “Arriving Twice”, de 2000) e tendo em sua formação Jeff Clyne, Phil Lee, Neil Murray, Mont Campbell, Hugh Hopper e Trevor Tomkins.
Alusões ao personagem também aparecem no anime Fate-stay Night (フェイト/ステイナ イト) desenvolvido por Type-Moon em 2004; no jogo Final Fantasy V (ファイナルファンタ ジーV) desenvolvido pela Square Enix em 1992; na webcomic Girl Genius da Studio Foglio LLC de 2001; e no jogo Devil May Cry 4 (de 2007, da empresa Capcom) – como nome de uma arma.
No jogo Torre de Druaga (ドルアーガの塔) lançado pela Namco em 1984 e adaptado para um anime, Gilgamesh é um personagem chamado apenas de “Gil”.
No desenho do Batman de Bruce Timm nos anos 90 (Batman: Animated Series) o nome “Projeto Gilgamesh” parece no episódio “Bane” estreado em setembro de 1994, escrito por Mitch Brian e dirigido por Kevin Altieri, fazendo alusão a um projeto do governo cubano que supostamente criara o vilão Bane.
Houve também uma série de quadrinhos que recontava a história lançada na França em 2004 pela editora Dargaud escrita por Gwen de Bonneval e desenhada por Frantz Duchazeau.
Não apenas pela importância histórica deste conto, mas principalmente pela profundidade filosófica de seu enredo, A Epopéia de Gilgamesh (حماسه گیل گمش ) é uma das mais fascinantes lendas que eu, particularmente, já li. E justamente por isso, lamento que seja uma história tão pouco conhecida ou mesmo explorada pela Literatura.
Se um dia fosse (merecidamente) adaptada para o cinema, creio que um dos atores que mais fielmente poderia interpretar o personagem principal, seria o Michael Fassbender (que fez o Stelios no filme 300). Já no quesito “versão brasileira”, creio que o mais indicado para dublar fosse o Alfredo Martins (que faz o Hank Hill, no desenho da FOX “King of The Hill”).
Ricardo Latorre
Trilha Sonora
| | | |
| 01. | Civilization | Basil Poledouris |
| 02. | Theology | Basil Poledouris |
| 03. | Sacral Nirvana | Era |
| 04. | The Primal Gods | Dagda |
| 05. | Last Song | Era |
| 06. | Wifeing | Basil Poledouris |
| 07. | Prayers | Era |
| 08. | Reborn | Era |
| 09. | After Thousand Words | Era |
| 10. | All Dark Graves | The Faceless |
| 11. | The Watchers | Septic Flesh |
| 12. | Immortal | Vangelis |
| 13. | In Sumerian Haze | Sirenia |
| 14. | Sumerian Magic | Kitaro |
| 15. | Immortality | Pearl Jam |
| 16. | Ferme Les Yeux Et Imagine Toi | Soprano feat. Blacko |
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Tabela de Posição Cronológica
| | A agricultura começa a ser desenvolvida |
| | Primeiras ocorrências de cerâmica e obras de arte rupestres |
| | Dilúvio bíblico e destruição da Atlântida |
| | Nasce Gilgamesh |
| | Surgem as primeiras embarcações |
| | Grupos humanos começam a habitar a Finlândia |
| | Plantações de milho começavam a se desenvolver nas Américas |
Textos e desenhos: Ricardo Latorre
Supervisão de cores: Priscila Kornely Assini







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